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Pelo Telefone (1916)

A gravação contestada do primeiro samba brasileiro

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Pelo Telefone, cujo título em português se traduz como "on the telephone", ocupa uma posição fundacional na história gravada do samba brasileiro.[1] Registrada no Rio de Janeiro ao final de 1916, a composição conquistou sua reputação canônica menos por novidade musical do que por acidente documental, já que os acervos da Biblioteca Nacional do Brasil a identificam como o samba mais antigo já gravado.[2] A tradição a que se atribui o lançamento, na prática, vinha se formando há décadas nas comunidades Afro‑Brasileiras da Bahia e do Rio, onde danças circulares lideradas por percussão transportavam heranças da África Ocidental através dos períodos colonial e imperial.[3] Assim, a maioria dos historiadores trata a peça não como um verdadeiro ponto de origem, mas como uma dobradiça, o ponto em que uma prática largamente oral cruzou para o arquivo comercial e adquiriu uma identidade fixa e datável.

O próprio termo antecede há muito tempo o disco que o tornou famoso. Presente em português desde pelo menos o século XIX, "samba" designava inicialmente uma dança popular, e só com o tempo seu sentido se ampliou para englobar uma dança circular de tipo batuque, um estilo de dança e, finalmente, um gênero musical discreto.[4] Essa ampliação semântica acompanhou um processo social, pois a consolidação do samba como gênero mercadológico começou na década de 1910 e encontrou seu marco inaugural em Pelo Telefone quando a canção chegou ao público em 1917.[5] Contudo, contemporâneos e musicólogos posteriores observaram um paradoxo marcante. A obra que batizou o samba gravado era, em termos rítmicos e instrumentais, consideravelmente mais próxima do maxixe que então dominava as salas de dança do Rio do que do samba percussivo e sincopado que se cristalizaria cerca de uma década depois.[6]

A autoria de Pelo Telefone tem sido contestada quase desde o momento de seu registro. A obra foi inscrita em 27 de novembro de 1916 sob o nome de Ernesto dos Santos, o guitarrista e compositor conhecido como Donga, que só posteriormente nomeou o jornalista Mauro de Almeida como seu parceiro no crédito.[7] Como a canção tomou forma em um encontro communal de samba, montado por improvisação e invenção compartilhada, vários outros músicos mais tarde avançaram suas próprias reivindicações sobre sua criação.[8] A disputa revela uma tensão presente na historiografia do samba inicial, na qual uma arte nascida de prática coletiva e semi‑anônima foi inserida nas categorias individualizadoras de direitos autorais e crédito comercial. O registro documental que resultou privilegia autores nomeados em detrimento do círculo mais amplo que realmente produziu a música.

A recepção contemporânea ajuda a explicar como uma única gravação pôde tornar‑se o marco da cronologia de todo um gênero. Pelo Telefone tornou‑se um sucesso popular imediato e considerável, e esse alcance comercial conferiu à gravação uma autoridade que seus inícios obscuros e colaborativos de outra forma poderiam ter retido.[9] Tendo surgido da improvisação dentro de um círculo de samba, a peça, no entanto, cruzou rapidamente para a circulação em massa, permitindo que uma música enraizada em encontros semi‑privados adquirisse uma presença pública e duradoura.[9] Sua fama parece ter sido autorreforçadora, pois o sucesso gerou documentação e essa documentação, por sua vez, assegurou a posição retrospectiva da obra como ponto de partida.

O ambiente desse círculo tornou‑se quase tão lendário quanto a canção. Pelo Telefone está firmemente associado à casa da Tia Ciata, uma respeitada praticante de Candomblé cuja residência no Rio atraía os principais músicos populares da época para um milieu criativo sustentado.[10] Sua casa situava‑se no distrito que mais tarde foi mitificado como Pequena África, ou Little Africa, o bairro que a pesquisa subsequente descreve como o berço do samba carioca.[11] Pesquisas acadêmicas recentes enfatizaram que esse ambiente funcionava não como um pano de fundo passivo, mas como um ateliê ativo de criação musical. Dentro dele, as chamadas Tias Baianas — entre elas a própria Ciata, ao lado de Perciliana, Maria Adamastor, Mariquita, Amélia Aragão e Carmem do Ximbuca — atuavam como compositoras, instrumentistas e cantoras por direito próprio.[12]

Essa dimensão feminina tem sido frequentemente excluída da narrativa padrão. O estudioso Rodrigo Gomes sustenta que o mundo musical das Tias Baianas foi sistematicamente desvalorizado e obscurecido por uma historiografia moldada nas classes altas, fixada em grandes homens, eventos públicos e registros escritos, ao passo que negligenciava o espaço doméstico, a transmissão oral e o saber feminino.[13] Lida sob essa crítica, a história convencional de Pelo Telefone — um único autor masculino, uma data de registro precisa, um lançamento comercial — aparece como exatamente o tipo de lembrança seletiva que eleva o indivíduo documentado acima do coletivo e do trabalho substancialmente feminino que sustentou a forma.[13]

A afirmação de que Pelo Telefone foi o primeiro samba gravado também requer qualificação. Discos anteriores sobrevivem e alguns catálogos já os classificam como samba, entre eles "Samba — Em Casa da Bahiana" de 1913 e "Urubu Malandro" de 1914, o que desestabiliza qualquer atribuição ordenada de prioridade.[14] Se tais gravações contam como samba propriamente dito ou como gêneros vizinhos permanece uma questão de definição, e o veredicto depende de se se pondera o rótulo usado na época, o conteúdo rítmico subjacente ou o julgamento retrospectivo de historiadores posteriores. A durabilidade da primazia alegada de Pelo Telefone, portanto, repousa tanto na documentação institucional e no sucesso comercial quanto em fatos cronológicos estritos.

A trajetória mais longa do desenvolvimento do samba esclarece o que Pelo Telefone fez e não fez. O gênero seria reorganizado em sua forma moderna apenas no final da década de 1920, no bairro da Estácio, onde um novo padrão percussivo produziu a cadência mais rápida e mais intensamente sincopada, agora sinônimo de samba, e onde as escolas de samba emergentes e a expansão da radiodifusão levaram a música por todo o Brasil.[15] Medido contra essa transformação posterior, Pelo Telefone marca o início da vida gravada do samba, e não a maturidade do gênero em si. Seu legado, porém, é considerável, pois a música que ajudou a inaugurar — antes criminalizada e desprezada por suas origens operárias e Afro‑Brasileiras — acabou por conquistar a aceitação até da elite cultural e foi elevada a um emblema definidor da identidade nacional brasileira.[16]

Referências

  1. 1.Pelo TelefoneWikipedia contributors, Wikipedia
  2. 2.Pelo TelefoneWikipedia contributors, Wikipedia
  3. 3.Samba - Wikipediaen.wikipedia.org
  4. 4.Samba - Wikipediaen.wikipedia.org
  5. 5.Samba - Wikipediaen.wikipedia.org
  6. 6.Samba - Wikipediaen.wikipedia.org
  7. 7.Pelo TelefoneWikipedia contributors, Wikipedia
  8. 8.Pelo TelefoneWikipedia contributors, Wikipedia
  9. 9.Pelo TelefoneWikipedia contributors, Wikipedia
  10. 10.Pelo TelefoneWikipedia contributors, Wikipedia
  11. 11."Pelo telefone mandaram avisar que se questione essa tal história onde mulher não tá": a atuação de mulheres musicistas na constituição do samba da Pequena África do Rio de Janeiro no início do século XXRodrigo Cantos Savelli Gomes, Per Musi, 2013
  12. 12."Pelo telefone mandaram avisar que se questione essa tal história onde mulher não tá": a atuação de mulheres musicistas na constituição do samba da Pequena África do Rio de Janeiro no início do século XXRodrigo Cantos Savelli Gomes, Per Musi, 2013
  13. 13."Pelo telefone mandaram avisar que se questione essa tal história onde mulher não tá": a atuação de mulheres musicistas na constituição do samba da Pequena África do Rio de Janeiro no início do século XXRodrigo Cantos Savelli Gomes, Per Musi, 2013
  14. 14.Pelo TelefoneWikipedia contributors, Wikipedia
  15. 15.Samba - Wikipediaen.wikipedia.org
  16. 16.Samba - Wikipediaen.wikipedia.org

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Bailar Editorial Team. (2026). Pelo Telefone (1916). Bailar Biblioteca. Recuperado em July 5, 2026, de https://getbailar.com/biblioteca/encyclopedia/samba/recordings/pelo-telefone-1916

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Bailar Editorial Team. “Pelo Telefone (1916).” Bailar Biblioteca, 2026, getbailar.com/biblioteca/encyclopedia/samba/recordings/pelo-telefone-1916. Acessado em 5 July 2026.

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Bailar Editorial Team. “Pelo Telefone (1916).” Bailar Biblioteca. Acessado em July 5, 2026. https://getbailar.com/biblioteca/encyclopedia/samba/recordings/pelo-telefone-1916.

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Editor-chefe: Paul Thomas Plawin

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